É fácil deixar de fumar!
Eu sei o que estou a dizer, porque já o consegui, pelo menos, umas três vezes. E sempre com imenso sucesso.
Da primeira vez, estive nove meses sem fumar. E um dia, por causa duma "discussãozinha", acendi um cigarro. Eu disse que era só aquele, mas no fundo sabia o que estava a arriscar. Depois de uns largos meses, se calhar mesmo um ou dois anos a fumar, tornei a deixar no dia em que dei por mim a fazer a barba e a fumar uma cigarrilha, em jejum.
E assim estive durante quase dois anos. Nunca contei o tempo, mas foi muito. Um dia, ou melhor, uma noite de Verão, depois de uma "caldereta de lagosta", bem comido, melhor bebido e em muito boa companhia, sucumbi a uma cigarrilha. Aquela conversa do costume, que a cigarrilha não faz mal, que os cigarros é que fazem mal porque estão carregados de papel (!) e de chumbo e de tudo o mais. E que as cigarrilhas é que são boas, tão boas que até os índios as fumariam, se lhes chegassem. A verdade é que passados três dias já fumava uma boa cigarrilha, logo depois do pequeno almoço, das tais que até os índios fumariam.
Assim estive até há dois meses atrás, quando deixei novamente de fumar (eu bem disse que sabia do que estava a falar...) Verdade, verdade é que já tinha tentado deixar o vício uns tempos antes. Mas desisti de deixar de fumar quando dei por mim, às 3 da manhã, na cozinha, a tentar assar uma farinheira (note-se que a cozinha não é a minha assoalhada preferida!), acompanhada com dois ovos estrelados e uma cerveja preta.
Tinha estado uma semana inteira sem fumar, mas em compensação dava por mim sem sono e a fazer verdadeiros "raids" à cozinha e à despensa. Parecia um daqueles aspiradores industriais Nilfisk. Aspirava tudo o que era e não era comestível e que encontrava à minha frente. Desisti de desistir de fumar. Mas por momentos...
No passado mês de Setembro, mais propriamente num fim de semana em que tive de tudo, aniversários, baptizados e casamentos (bem, só faltava um funeral, mas para estes, normalmente, não há convites antecipados - avisam-nos em cima da hora) decidi deixar de fumar. Passei o fim de semana em festa (claro que não incluiu o funeral) e abusei, propositadamente, dos cigarros. No Domingo, por volta da meia noite ainda havia uns cinco cigarros no maço. Decidi que não me deitaria sem os fumar, resolvido a não fumar mais nenhum além daqueles. E assim foi. Às 4 da manhã já eu estava agoniadíssimo e com uma enorme dor de cabeça. Estava no ponto!
No dia seguinte, quando acordei, não fumei. Não foi muito difícil resistir.
A verdade é que de todas as outras vezes que deixei de fumar foi assim. De um momento para o outro. Com preparação, mas de vários cigarros para nenhum. Pessoalmente, acho que só pode ser assim.
E depois... Bem, depois vem a parte mais difícil. Mas também a mais sensitiva, em todos os aspectos. A tensão arterial, bem como a frequência da batida cardíaca baixaram de um dia para o outro. Essa é a primeira consequência benéfica que adquiri no imediato. E percebi isso logo. Passados uns dias, muito poucos, dei por outra consequência também quase imediata. Aquele sabor na boca pouco agradável de um fumador ao acordar. Passados mais uns dias, isso começa a reverter. E depois a pele. Claro que este aspecto parece ser mais importante para as mulheres, mas não é assim. O ar macilento que a pele dos fumadores pode apresentar, só se percebe quando ele desaparece. De repente o ar esverdeado desapareceu... É verdade, tudo melhora: o olfacto, o paladar, a respiração, a pele, a tensão arterial, a frequência da batida cardíaca, a sensação de fadiga, enfim, tudo.
E o que temos que pagar para obter todos esses benefícios? Temos que pagar a factura dos anos que passámos a fumar. Agora vem a parte ainda mais difícil: a irritabilidade, as insónias, o apetite desmesurado, os tais "raids" às despensas, a nervoseira, as mudanças de humor. Mas pode resolver-se isto com alguma facilidade. Quando se sentir irritado e com vontade de implicar, aproveite para fazer aquelas reclamações pendentes, com a Netcabo, com as operadoras móveis, com a TVCabo. Aproveite toda essa energia para pôr as reclamações em dia!
Quanto aos outros fumadores, não os hostilize. Quando os meus amigos fumadores sabem que deixei de fumar, alguns evitam fumar à minha frente. Mas peço-lhes que fumem e até que atirem o fumo bem para cima de mim. Sempre mato as saudades.
O pior são as refeições. Refeições bem temperadas e álcool não ajudam em nada. Mas se perceber que a vontade de fumar dura menos de 10 minutos... uma dor de dentes é bem pior e dura muito mais tempo.
Uma semana depois de ter deixado de fumar, fui com três amigas (duas delas fumadoras e outra que estava a deixar o vício, mas sem grande convicção) jantar ao Rui de Silves. Alguns saberão o que é o Rui de Silves. Uma marisqueira onde se diz serem servidas as melhores imperiais de Portugal. Enquanto não mandarmos parar, as imperiais continuam a ser servidas "ad eternum". Depois do jantar, as amigas fumadoras, puxaram do óbvio cigarro. A amiga desistente nem tentou resistir e puxou também de um cigarro. (Puxar de um cigarro, que expressão apropriada...!) E ali fiquei, bebido das imperiais suficientes para me toldar a vontade e o discernimento. E foi muito difícil resistir. Talvez o momento mais difícil daquela semana. Mas resisti! A vontade ENORME de fumar, durou uns cinco minutos. E depois daquela provação, todos os outros desafios foram mais fáceis... Aquela tinha sido uma montanha muito difícil de transpor, mas que transformou a restante cordilheira em colinas de fácil subida e ainda mais fácil descida.
Outra coisa. Diga a toda a gente que deixou de fumar. Aos amigos e aos conhecidos. Quando perceber uma situação de conflito latente, vá logo avisando: "Olhe que eu deixei de fumar!!" Este aviso costuma funcionar.
Contabilize os dias que passou sem fumar. Quando vier a tentação, dá sempre jeito saber quantos dias de abstinência estragará com um momento de fraqueza. Se não se satisfizer com esse número, multiplique-o pelo número de cigarros que costumava fumar. Nós gostamos de números grandes e esse será ainda maior.
Um dia, e não será muito tempo depois, vai deixar de sentir a falta deles. Pelo menos tantas vezes. Por vezes, ainda sinto a falta dos cigarros. Sobretudo depois de comer coisas bem temperadas, de beber aquele vinho tão bom, naqueles momentos de convívio depois da refeição. Para mim, acabaram as tertúlias pós-refeição à mesa.
Deixei de fumar há muito pouco tempo. Pela minha experiência, não estou a salvo. O que tenho mais do que das outras vezes é a experiência dos fracassos que vou tentar usar a meu favor. Sei que sou como um alcoólico, que nunca mais poderei tocar num cigarro sob pena de recair. Mas também não penso muito nisso.
Das outras vezes nunca pensei deixar de fumar para sempre. Dizia que era enquanto durasse. Agora não. Quero que seja durante muito mais tempo.
* Publicado aqui a 17 de Novembro de 2003.